Visitantes cuidam deles mesmos, no Sesc Pompeia

Visitantes cuidam deles mesmos, no Sesc Pompeia

O ano era 1995. Meu primeiro ano de faculdade. A missão era ler Trilogia de Nova Iorque, do escritor americano Paul Auster. Eu já tinha ouvido falar dele, ou melhor, meu pai já tinha alguns livros dele, mas eu não tinha lido nenhum. Quando cheguei em casa já fui pedindo o livro emprestado.

“Espera, pega também o Leviatã. Acho que você vai gostar. Ah, uma das personagens é fotógrafa”.

Assim começou minha paixão mais longa e dolorosa. Platônica, claro, porque sou campeã em amores platônicos. Sempre foram os meus preferidos. Durante anos fui tão apaixonada, quanto obcecada por Paul Benjamin (que como eu tem nome duplo, eu me apego a esses detalhes), um rapaz (!) de Nova Jersei que foi parar na França e ainda enveredou pelo cinema. Como não me apaixonar?

Li Leviatã em uma madrugada. E sempre foi assim com todos os livros dele. Eu nunca consegui ter uma relação normal com os textos de Auster. Era tudo ou nada. Na faculdade, minha monitoria foi baseada na obra dele. Regime literário 24/7. Eu lia o que ele escrevia, os autores que ele lia, as entrevistas que ele dava. Era praticamente uma groupie.

E um dia eu resolvi parar de ler. Não li os últimos 4.

Corta.

Julho de 2009. Cuide de Você chega a São Paulo para uma temporada relativamente longa. Muito já foi dito e não vou me ater aos prós e contras da arte contemporânea, da autoficção, do limite entre público e privado ou das diferenças entre literatura que explora a interioridade e a que expõe a intimidade (link via @ladyrasta).

A primeira vez que eu li ou ouvi dizer qualquer coisa sobre a exposição pensei com meus botões: “ai meu pai, como assim?”. Parecia um tanto quanto vexatório e oportunista o uso do email como ponto de partida para uma obra de arte, mas essa é a sociedade em que vivemos certo? Onde o privado é público, onde o íntimo é exposto a todo momento.

De qualquer maneira, Cuide de Você nos confunde mais pelas emoções que um rompimento causa do que pela história de Sophie em si. Antes de ir eu visitei o blog da exposição e li os textos participativos. Fiquei com aquela sensação de gosto amargo na boca, mas logo na sequência minha xará me mostrou que existem retratos de amores que terminaram que podem nos emocionar sem ter o peso do rancor.

Rompimentos nunca são fáceis, sempre são dolorosos e, para mim, Cuide de Você era representativo pelos meus ex-amores, por ter decidido abandonar uma carreira após 10 anos, por ter perdido – na mesma semana – três ícones da minha infância: este, esta e este {essas histórias eu conto outro dia}.

Se eu tinha dúvidas em relação ao resultado da exposição, elas foram para o ralo assim que eu pus os pés lá dentro. Fiquei arrepiada e isso não é figura de linguagem. Sinceramente eu não achei que me sentiria assim. O que me impressionou não era só o visual daquelas mulheres lendo a carta. Ou ouvi-las interpretando o texto. Ou ainda as várias versões daquela folha expostas na parede ou disponíveis para os visitantes levarem para a casa. Era o universo particular de cada um acontecendo naquele instante. Um punhado de desconhecidos ali, parados, quietos. Todos – homens e mulheres – com uma brochura na mão lendo as interpretações daquelas 104 mulheres, uma cacatua e duas marionetes.

Havia algo de mágico naquele silêncio. Apenas as palavras das mulheres ecoavam no salão. Do outro lado, um balcão com livretos vermelhos expunha os objetivos da exposição, contava um pouco da história da autora e trazia algumas perguntas para reflexão, além de uma página em branco para que você pudesse escrever uma carta e romper seu relacionamento. Hummmm…

De uma forma ou de outra, a saída encontrada por Sophie é reflexo de uma postura muito comum entre as mulheres (pelo menos entre as que eu conheço, deixo claro). É necessário esgotar todas as interpretações até que não haja mais forças para pensar ou sentir. Talvez essa tenha sido a única forma de se libertar, ainda que paradoxalmente eles estejam eternamente ligados por essas palavras. Aliás, não vejo tanta diferença assim entre a obra dela e a dele. A discussão “ética” me parece um pouco hipócrita, mas o que sei eu de arte e literatura? Rigorosamente nada.

Corta.

Eu sou um ser impressionável e voltei com sede de Sophie Calle. Daí eu resolvi ler todos os links sobre o assunto que eu não tinha lido. E eu não sei se eu já comentei por aqui, mas eu sou lesada e eu nunca tinha me dado conta que ela é a inspiração de Paul Auster para Maria Turner, a fotógrafa de Leviatã, uma mulher “simplesmente excêntrica, uma pessoa heterodoxa, que levava sua vida segundo um conjunto refinado de rituais bizarros e peculiares”.

Hoje, inclusive, comprei o DVD do Man on Wire que por aqui se chamou O Equilibrista. Se você já leu Paul Auster sabe porque essa referência é importante. Se não leu…vai lá e descobre. De um jeito ou de outro, sem querer – por mera distração – Paul Auster voltou para a minha vida, o que me faz suspeitar que vou ser obrigada a voltar às madrugadas em claro. Estou quatro livros atrasada.

Links recomendados:

A melhor matéria que eu li sobre o assunto
Prenez Soin de Vous
Tag: Sophie Calle
Galerie Perrotin
Wikipedia, claro

Nota:
Vamos concordar que Grégoire facilitou bastante a produção artística. Gostaria de ver o resultado baseado nisso aqui. Eu adoro esse episódio. A cara dela é impagável.