Um dia ele foi criança. O sonho dele era ser independente, o que na prática é o mesmo que dizer: eu quero ser livre. No fundo, é isso que a gente quer: ser livre. Ter liberdade de escolha. Liberdade de sentir. Liberdade de ir e vir.
Oseas Santos e Silva é um brasileiro como qualquer outro. Nascido e criado em São Paulo, tem 49 anos, é casado, “muito bem casado” e tem 3 filhos, um de 18 anos e um casal de 12 anos. Ele brotou um dia na janela do carro do Toni quando íamos almoçar no Eldorado, no farol da Sapetuba com a Francisco Morato.
“Ei, você não quer comprar um pano de saco? Compre e colabora com a campanha: Vamos limpar o Brasil!”
Enquanto o Toni, bem sério, prestava atenção no argumento de venda, a Fernanda tinha um ataque de risos daquele que só ela sabe ter e aplaudia. Era para aplaudir mesmo. Diariamente nós somos surpreendidos pela espontaneidade e sacadas de gente que não teria motivo nenhum para pensar diferente. Gente que não foi para a faculdade para ter diploma e que por isso não está nem um pouco preocupada se o STF a compara ou não com cozinheiros. Gente que é auxiliar de enfermagem, mas que “ganha igual ou mais como autônomo nos faróis do que no setor privado dos hospitais”.
Oseas concluiu o segundo grau com muita dificuldade, “tive que fazer supletivo. A minha pretensão com esse trabalho é de declarar e de conscientizar a todo cidadão… é que não importa o seu grau de escolaridade ou a sua cultura. O importante é como se diz… fazer algo que chame a atenção da sociedade para aquilo que venha a ser o seu ganha-pão, honestamente, sem passar por cima de ninguém, sem enganar ninguém”.
Ele sonha com o negócio próprio, como milhares de brasileiros. Ele encontrou no pano de saco a bola da vez, aposta nele como o futuro dele e da família. “Esse é para mim o mais ecologicamente (sic), o menos poluente para o nosso ecossistema. Daí me veio a idéia de lançar uma campanha: Vamos limpar o Brasil. Ela não é uma campanha para fins lucrativos para ONGs religiosas ou políticas”, explica para mim e para o Pedro.
Ele faz questão de esclarecer que o argumento não é político. Eu, na verdade, tinha certeza que era. Engano meu. Olha só o que o que o Oseas tem a dizer sobre isso, na íntegra:
“Quando eu abordo as pessoas para apresentar meu produto eles até riem ou zombam dos políticos, mas acho isso interessante. Através desse riso, ele passa a entender o objetivo real da minha venda.
Eu não fiz pesquisa, mas dentre os produtos que usamos o que mais usamos é o tecido. Pra onde vão as nossas roupas? Quando elas ficam velhas onde vão? Você não vê as roupas espalhadas no chão. Você encontra os plásticos nos rios, nos córregos, nas ruas. Mas tecido é muito difícil ver jogado por aí. Vamos limpar o Brasil! A limpeza começa na nossa casa. Conscientizar a nossa casa de armazenar adequadamente o lixo. Pano de prato, de mesa.
O apelo ecológico é mais forte que o político. O apelo político é até menosprezado. Uma pessoa que eu abordei até falou ‘nossa, se for pra limpar o Brasil a gente vai precisar de muitos panos desse’. Daí a venda não sai. O apelo ecológico gera um apelo mais positivo. A conversa acontece melhor… as pessoas preferem pensar mais nisso.”
Freud explica … (mas eu vou deixar isso para outro post)
Oseas tem esperança e mais do que isso ele batalha para que o sonho saia do plano das idéias e se torne realidade. Quando cai a noite ele não vai para casa, começa mais uma jornada como auxiliar de enfermagem. Os filhos apóiam o pai e ficam “maravilhados” com essa disposição. “Quando eu chego em casa eles vêm me ajudar com o produto para no outro dia eu estar com tudo pronto”. O mais velho logo consegue o certificado de reservista e vai render o pai quando este precisar se ausentar. “Aqui não é para toda vida. É só o campo de divulgação. Já estou planejando alguns panfletos que ajudem os motoristas a passar o assunto pra frente”, explica.
Amanhã
Aos 18 anos, o filho mais velho de Oseas tá de olho nas Ciências da Computação. “Já o pequeno quer ser um doutor advogado. Ninguém tira isso da cabeça dele. A menina tá indo ou para o lado da veterinária ou para a medicina”, conta o empreendedor.
Eu: Olha, mas você sabia que agora sem diploma dá para ser jornalista?
“Olha, fala a verdade hein? Eu até gostaria, sinceramente. Principalmente essa área que eu tô aí nessa campanha, tudo que está voltado ao nosso desenvolvimento – como eu poderia me expressar melhor – o nosso convívio, a nossa sociedade. Estar dentro de algo assim, orientar as pessoas, reportagens em relação a áreas em que podemos ou não construir, sabe, esse tipo de coisa. Fazer um jornalismo real.”
Façam as suas apostas… Eu aposto no Oseas!
ps: Agradecimentos ao Pedro, que foi meu assistente na entrevista. Aliás, ele também é músico. No clipe ele é o rapá de camiseta azul =P